quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Um minutinho só

          Separe um minuto do seu dia pra sorrir. Faz bem, vai por mim. Já parou pra pensar, que raras vezes você vê seu próprio sorriso? Isso serve pra entender que sorrir faz com que você enfeite a vida pra alguém , enfeite a vida de alguém também! Então não perca tempo, quando alguém passar por você abra aquele sorrisão largo, amarelo, de orelha a orelha, aquele que faz com que a bochecha fique dormente. Você vai ver como é bom enfeitar a vida de alguém.
          Separe um minuto do seu dia para sonhar. Faz bem também, vai por mim. Já parou pra pensar que se sonhar não fosse bom, não haveria graça conseguir chegar ao fim da vida e dizer: "valeu a pena"? Porque sonhar faz com que a gente alimente a vontade de estar sempre na luta, sonhar enfeita a nossa própria vida. Isso serve pra entender que viver não é estar no mundo, viver é ter perspectivas de um mundo que você mesmo pode criar, ainda que só em sonho.
          Separe um minutinho do seu dia para agradecer a Deus. Faz muito bem, vai por mim. Já parou pra pensar que quando você recebe um presente diz "obrigado"? Isso serve pra entender que você deve agradecer todo dia, porque a todo dia você ganha de presente poder sorrir pra enfeitar a vida dos outros, poder sonhar pra enfeitar a sua própria! 

Amor não é isso


Um dia você vai aprender que amar é um sentimento involuntário, e digo mais: independente. É isso mesmo, é isso que faz com que nos apaixonemos pelo outro, sem que o outro possa consentir. Não existe essa história que o amor depende do outro. As pessoas se perderam em uma definição de amor em que só se pode amar se o outro te ama também. Isso é mentira, falácia, conto da carochinha, coisa que a psicanálise inventou pra resolver os problemas de 98% dos pacientes.
Quem nunca ouviu: “amor bom é amor correspondido”? De fato é, de fato é bom amar e ser amado, dar e receber carinho, a reciprocidade sempre foi um quesito importantíssimo pra se levar em conta. Mas veja bem, amar não é isso. Amar é via de mão única, amar é destinar a alguém alguma coisa, amar é doação. Nós, pobres entendedores de sentimentos, é que deturpamos tudo. Nós vamos fingindo que amar é receber, porque nós somos egoístas mesmo. Mas amar, meu bem, não é isso.
Amar alguém é continuar querendo bem, mesmo que a pessoa não te faça ou não tenha te feito bem um dia. Amar é perdoar, ainda que não se tenha perdão cabível no momento. Amar é estender a mão, se necessário, ainda que o destinatário desse amor não tenha feito isso por algumas vezes. Amar não depende do outro. Amar é continuar amando quando não se tem mais amor. Amar é continuar rezando para que o outro esteja bem, para que o outro ame também. Mesmo que não seja você, mas que ame.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Um dos últimos exemplares de homem

     Tem dias em que a gente só coloca os pés na rua pra ouvir uma história, esse foi um desses raros dias. Entrei numa festa pequena, com poucas pessoas mas muitos sorrisos, era a comemoração de algo que eu não sei bem o que, mas era. Avistei um menino calmo, branco, bem branco e franzino, sentado na mureta escolhendo músicas. Todos conversavam, todos falavam sobre todos os assuntos, todos naquela festa tinham uma boa história pra contar, eu sei. Mas a dele, a dele foi arrebatadora.
     Primeiro ele soltou entre os dentes que casaria em um ano, namorava a seis, mas não tinha aliança, achei estranho, "que namoro mais patife é esse que não tem aliança". Ele disse que achava besteira, eu tentei retorcer e falei que a aliança era um sinal de compromisso, ele me olhou e disse: "você está errada, compromisso é o que eu tenho por ela, não o que eu coloco no seu dedo". Eu sabia, aquele ali amava.
     Não estava enganada, o sorriso ao contar sua história longa, de idas e vindas demonstrava um amor, que eu gostaria de assistir de perto, não para aprender nada, mas pela pura magia de apreciar um dos poucos homens dessa Terra que ainda amam e respeitam alguém. Me contou de um namoro de 6 anos, disse que o que sentiam sobreviveu a uma mudança dele para França, que durou um ano. Ele mora no Rio, se mudará para Minas no início do ano, ela em São Paulo, e eles ainda sonham com o casamento do ano que vem. Não sei ao certo porque aquilo me chocou tanto, ora, era apenas um cara de 22 anos, que amava alguém, a quem era fiel e que pretendia casar-se. Acontece que o amor tá em extinção.
     Quem nunca se perdeu na retórica de um babaca que tenta te convencer que te ama falando que você é a mulher da vida dele? Quem nunca descobriu uma traição e perdoou porque o cara de pau dizia estar arrependido? Quem nunca pensou "isso é instinto de homem"? Quem nunca? Perguntado se já havia traido ele respondeu: "sim, traí no início, mas não era namoro ainda. Aliás, não era amor, depois que eu amei não houve traição." Queria poder dizer a menina a quem se destina esse amor que ela possui um dos últimos exemplares de homem, porque os que eu vejo por aí são só moleques...

sábado, 27 de outubro de 2012

Posso ou não posso?

 
       Podia sair pela rua com um guarda chuva colorido, pulando poças na grama, rindo para quem estivesse me olhando pela janela.
     Podia jogar meia dúzia de roupas na mochila, dar uma banana para esse tédio, colocar um fita rosa choque no cabelo, um óculos bem grande, sorrir para o apresentador do jornal da noite e sair pelo mundo.
     Eu podia também correr pela pela cidade gritando palavras de felicidade, jogando purpurina e confete dos altos dos prédios da Central do Brasil, só pra ver alguém mais feliz por hoje.
     Eu podia parar no boteco da esquina, desamarrar as sandália, sentir o sujo do chão pelos meus pés, rir para o bebum, sem os dentes da frente, e sentir que posso ser como ele.
     Eu podia pegar um avião, um ônibus um trem, ir atras e quem me deixou, contar meia dúzia de besteiras, comer e dormir como se não houvesse mundo do lado de fora da janela de ferro.
     Podia e posso muita coisa, fala-se muita coisa, fala-se muito de liberdade, mas eu consigo ver as amarras grotescas e dolorosas que aprisionam as pessoas. Amarras na mente, nos pés, nas mãos e no lado que bate uma escola de samba.

domingo, 7 de outubro de 2012

Porque era tarde demais

     Não fosse tarde, ele lançaria a mão ao telefone e com o ar mais dispendioso que lhe sobrasse, ousaria por descuido ou  por maleficência, cuspir algumas de suas palavras tórpidas, que a deixariam novamente em êxtase. Não fosse tarde, ele -que embriagado encontrava-se naquela noite mórbida- pegaria seu carro veloz, e como num vulto apareceria no seu portão de madeira. Não fosse tarde, acredita-se perfeitamente, que ele a procuraria mais uma vez com todo seu olhar provocante de quem nada procura e tudo tem.
     Não fosse já tarde, ela também teria procurado por ele mais uma vez, e com a voz mais aveludada que lhe coubesse, ousaria por descuido ou ingenuidade, recitar algumas de sua palavras nostálgicas, que o deixariam novamente perplexo. Não fosse já meio tarde, ela também -meio embriagada decerto- naquela noite esvoaçante, procuraria-o no seu paradeiro. Não fosse já tarde, acredita-se perfeitamente, que ela também o encontraria com todo seu olhar inquieto de quem nada tem e tudo procura.
     Acredita-se, redondamente, que essa história teria se repetido algumas tantas vezes, e que por essa razão o fim das contas já seria esperado, mas na derradeira que vos conto, o tempo já se tinha avançado demais. Acredita-se também que os conselhos que as partes interessantes teriam recebido, no tempo descrito, fossem diferentes. A um cabia 'não deixe que se perca', a outro 'desvincule-se disso'. Entretanto, ambos seguiam os conselhos trocados, o que era devido a um, era exercido pelo outro. E assim sem perceber, o tempo avançara e cada qual na sua monotonia radical esquecera-se de que mais vale sentir a ausentar-se.
     E então, na crista longitudinal do problema, resolveram culpar o tempo. Tempo que nunca mentira e sempre dissera: cuidado, não brinque comigo. Então, quando ele avançado apresentara-se, tentando se ausentar da culpa do não querer no tempo certo, eles culparam o tempo, pelo bel-prazer que insistiram. E o tempo que de longe olhara, pensava consigo mesmo, que a peça que o destino causara, culpava-o por desgraça, o desamor de dois, que se não tivessem sido tão teimosos, não deixariam que o tempo levasse. E ele que dera tantas chances dizia: eu disse!
    E se não fosse tarde demais, certamente os dois teriam aberto mais seus olhos, e enxergado que do lado deles não caberia a nenhum outro andar. E se não fosse já tarde demais, a repugna de uma juventude vã teria os feito ver que mais valia ter ficado juntos. Mas porque era tarde demais, nenhum dos dois consentia, que a única coisa que lhes cabia, era o amor dos dois, a dois.

domingo, 23 de setembro de 2012

A nossa sinfonia

     Me ocorreu agora, que já estamos no momento do 'não sei pra onde vou', que as coisas só se encaixavam quando você estava aqui. É engraçado isso, porque eu sempre imaginei que você desconsertava tudo, e só o fazia por pura implicância com a minha vida regrada e extremamente certinha. Mas hoje de manhã, quando acordei, percebi que na verdade, quem fazia com que as coisas ficassem regradinhas era você, com aquele seu ar de 'eu vou estragar os seus planos se você planejar até a hora e o minuto que eu devo te ligar'. Era você quem mantinha, na minha mente, aquela regra de que eu tinha que planejar pra ser surpreendida com as suas ondas de rebeldia, de quem só vai fazer aquilo que quer na hora que quer.
    Então me ocorreu, a conclusão derradeira da história: Minha partitura de tempos exatos, só fica completamente certa com suas pausas repentinas, que vez ou outra trocam uma semibreve por uma pausa fusa, e lá vou eu feito louca esvairada tentar colocar mais notas pra fazer com que o compasso fique completo e que no final da sinfonia ninguém perceba a defasagem que você fez. Hoje eu vejo como eu gosto dessa coisa de ter que arrumar os compassos em tempo ímpar pra dar tudo certo. Hoje eu vejo, sobretudo, que nossa vida é regida por essa composição revolucionária, vejo que sem suas mudanças na partitura não há música nenhuma.
     Então me ocorreu também, que é gostoso ficar brincando assim, é isso que faz manter viva a melodia que a gente gosta de ouvir e de dançar. E nesse tempo do 'não sei pra onde eu vou agora', as coisas estão calmas demais, e extremamente regradas, estaticamente divididas em compassos iguais, com notas que se repetem a todo momento. Foi quando eu percebi, que pra salvar a minha orquestra, só umas pausas ou notas de grande duração suas fariam algum efeito agora.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

E gosto não se discute

     Gosto de brincar de falar palavras que só eu lembro o significado. Gosto de sorrisos discretos, de músicas nacionais, tradicionais, banais. Gosto também de coisas manuais, de coisas simplórias. Gosto de coisas antigas, de móveis que contam história, sou fascinada por antiquários e as histórias ocultas que eles não contam, mas a gente escuta. Gosto de novela, gosto de poema, gosto de chorar vendo filme de romance, gosto de pijamas de calça e meias que combinem com eles.
     Deixei de gostar de coisas complicadas, faz tempo que não gosto de ficar resolvendo os problemas dos outros. De uns tempos pra cá também não tenho gostado muito de gente, gostoso pra mim é ficar quietinha, sozinha. Porque eu gosto mesmo de falar sozinha, eu gosto muito mesmo. Não gosto de cachorro me lambendo as pernas, mas gosto de ve-los correndo em grandes jardins. Gosto de praia, gosto de sol, gosto de agua de coco, gosto da carninha que tem lá dentro.
     Gosto de gente sincera, que fala o que pensa, e não pensa o que fala. Gosto de rir dos meus embaraços, gosto de quem me embaraça e ri de mim por estar embaraçada. Gosto de abraço forte, de apoiar minhas mãos em peitos firmes e juntar os dedos à boca e imaginar que estou sendo salva pelo homem aranha. Gosto de sorrisos abertos, de sorrisos claros. Gosto sim e muito de clareza, mas ainda fico com o subliminar.
     Gosto de gostar de tanta coisa que gosto em mim, que vira e mexe gosto de procurar essas coisas em quem eu gosto. E gosto também de não achar nada que gosto, em mim, nas pessoas. Mas gosto nas pessoas o que não gosto em mim. Gosto dessa coisa de gostar e desgostar. Gosto de cada bobagem, de doce, de salgado. Gosto de comer balas de dentaduras e fingir que uso uma delas. Gosto dessas coisas bobas. Coisas boas que a vida dá, que as vezes a gente esquece que gosta, e por esquecer finge que se passasse a vida sem topar com uma dessas acabaria por deixar de gostar.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Parece que alguém morreu, mas não morreu ninguém.

     Eu estive parada esse tempo todo, pensando em como você deve estar agindo para driblar a distância e a nossa falta de encontro. Eu estive mesmo aqui, pensando quando acordava ou quando ia dormir, ou a qualquer hora do dia, em como você estava fazendo pra não me ligar, pra não me mandar mensagem ou pra não pensar em mim. Achei, durante esse tempo todo, que sua vida também andava meio vazia e que eu fazia falta tanto quanto você andava fazendo pra mim.
     Quando as pessoas perguntavam o que tinha acontecido, eu respondia o básico e mudava de assunto. Quando eu me perguntava o que tinha acontecido, eu teorizava demais e te transformava no cara mais verdadeiro e mais leal aos meus sentimentos. Mas não, talvez não fosse tão assim. Minhas amigas fizeram plantão na minha casa, todo mundo me liga como se alguém tivesse morrido, e eu noto a mesma frase em todos os discursos de conforto: "vai passar, no início é assim mesmo, mas depois passa".
     Acho que durante esse tempo em que eu esperava que passasse, eu realmente estava achando que alguém tinha morrido, talvez tenha mesmo. Parece também que eu me cobri de preto, de luto mesmo. E quando alguém chegava perto, tentando se aproximar, a redoma que eu tinha colocado proibia. Talvez eu só quisesse você de volta, talvez fosse só força do hábito, ou eu mesmo que desacostumei dessas coisas. O primeiro sorriso de outro cara me assustou, eu lia: "sorriso", mas meu cérebro respondia: "não é o dele". Depois ele me pediu meu telefone, eu lia: "quero seu telefone", mas meu cérebro respondia: "você não vai querer atender se ele ligar". Por fim ele me pediu um beijo, eu lia: "quero um beijo seu", mas meu cérebro respondia: "você não quer o dele".
     Foi difícil esse tempo de tristeza profunda, esse tempo preto, essa aflição de não saber de nada da sua vida, a não ser as coisas que você queria que eu soubesse, que fazia questão que eu ficasse por dentro. Essas coisas mesquinhas que você publicava pra me provar, ou me comprovar mesmo, que você estava bem. Doeu, viu?! Cada noite que você colocava uma noitada diferente doía. Mas eu sempre achava que era por conta do vazio, era auto defesa do seu coração.
     Mas aí, hoje pela manhã eu andei me lembrando que um dia você disse pra mim que eu era sua amiga, que eu era sua melhor amiga, sua única amiga, na verdade. Nesse dia você também me disse que não gostaria de ver seus amigos sofrendo por algo que fazia. Que se você pudesse nunca magoaria um amigo seu. Contraditório, não?! Então eu acho que não há mais razões pra sofrer quando se entende isso. Porque onde você estava quando eu mais precisava de uma palavrinha? Onde você estava quando qualquer sms vago salvaria a noite? Onde você estava quando viu que eu estava realmente mal e não fez nada? Onde você estava?
     Então, e assim, não há mais motivos pra chorar. Porque esse tempo todo você não estava se sentindo vazio, como eu supunha. Nem andava driblando coisa nenhuma, como eu achava. Nem estava se auto defendendo de coisa alguma quando não me procurava. Você simplesmente não estava. E essa deve ser realmente a vida que você almejava, sem nenhuma daquelas minhas ligações de "se cuida, eu amo você", sem nenhum sentimentalismo aflorado as 2:30 da madrugada, sem nenhuma responsabilidade de ter que cumprir aspectos formais de relacionamentos, sem ter de ouvir ou falar pra ninguém que gostaria de viver ao lado dessa pessoa a vida inteira.
     Andei de luto durante esse tempo, esperei pra ver se a dor ia embora, ou se você voltava mesmo, mas até ontem nem sinal de ambos. Então foi aí que eu pensei: "vou fazer o que se tá achando mais legal uma mesa, uma garrafa de vodka e umas mulheres bonitas e vazias dando mole? faz parte". E resolvi tirar o luto, não morreu ninguém, eu é que estava morrendo enquanto a vida passava. Ontem eu neguei um sorriso, um telefone e um beijo. Mas hoje, tirei o luto.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

O surfista da long

     Pouca luz, som alto, pouca roupa, muito sorriso. Sábado a noite, você já pode imaginar. Muita maquiagem, anéis, cordões, saltos e um surfista. Como assim um surfista no meio da boate? Não sei, não entendi também. Eu estava vendo, estática, um robô psicodélico que adentrou no recinto quando um cara pisou no meu pé e disse: perdão. Eu acho que foi assim que nos conhecemos, ele estava tirando fotos do robô que eu observava de longe, meio embaraçada pelo álcool. Disse: não há de que. Não sei se foi assim que nos conhecemos, mas se não foi, passa a ser. Inventei porque eu gosto dos começos.
     Eu encostei nele quando quase caí e disse: perdão. E ele respondeu: não há de que. Muita cordialidade pra dois seres meio perdidos na night do Rio. De repente no meio daquela empolgação do robô coberto de luzes, tocou cone crew, eu como louca comecei a cantar muito empolgada, ele olhou. E pela indiscrição de ter me olhado, disse: Perdão. Eu ri, ri como louca, ou como bêbada mesmo e disse: não há de quê.
     E aí ele se aproximou, perguntou meu nome, me falou o dele. Disse sua faculdade, perguntou a minha. Perguntou o curso, disse o dele. Depois me olhou no fundo dos olhos, como oftalmologista e disse: Você mora aqui? Respondi que não, disse: Guaratiba. Ele retrucou: Grumari? Eu gritei: Você surfa? Ele disse: Sim.
     Depois de alguns segundos de espanto, que até agora eu não entendi o motivo, consegui dizer que adorava surf, inventei que surfava também, só pro papo ficar mais interessante. Fui perguntando as coisas básicas que ouço meu irmão falar, quando o assunto é pegar onda, ele foi se enrolando e no final disse: Tá, não surfo tanto. Surfo de... Eu como louca esvairada, me atirei com as palavras a frente e disse: De long? Ele: isso, surfo de long. Eu entendi ali que ele não surfava era nada, deve ter pego umas ondinhas de bodyboard e queria que eu acreditasse que ele surfava de quilha. Mas mesmo assim eu achei irado.
     Ele falava um 'brother' bem do jeito que eu gosto de ouvir, de dentro pra fora, assim colocando toda expressão do mundo, e eu achei irado, o surfista de long, que nunca surfou. Achei aquilo fantástico, talvez por estar bêbada, talvez por ter entendido que ele também estava achando legal falar de uma coisa que nunca fizera. E aí o robô foi embora, e meu celular tocou avisando que já me esperavam na saída, dei adeus ao surfista da long e fui embora. No outro dia fiquei achando que éramos amigos, e só falamos trinta minutos sobre coisas que não fizemos, mas foi engraçado conhece-lo. O meu quase amigo, quase surfista, quase de long.

domingo, 22 de julho de 2012

Que assim seja

     Poucas vezes na vida encontramos porto, encontrar porto é encontrar a saída, é o pulo do gato. Eu, agraciadamente, encontrei alguns portos. Um deles é Milena. Milena sorrateiramente entrou na minha vida num momento de transição, momento de virada, momento de crescimento. Milena me encontrou crua, e como poucos na vida viu todos os defeitos que me fazem Victoria, mas como única enxergou as poucas virtudes que me fazem amiga.
     Sincronicidade de alma. É isso que penso de nossas vidas, a começar pela data em que nascemos (a mesma), a terminar pelos sonhos que temos: o de sermos felizes pra sempre (exatamente o mesmo). Encontro de duas vidas distintas, de duas vidas que só queriam ser duas vidas que caminham juntas.
     Então e assim foi Milena entrando e prometendo não sair mais do meu cotidiano. E se eu pudesse dizer algo a Milena, diria que um muito do pouco que sou devo a ela, e a ela eu serei grata pra sempre. Porque foi Milena que quando me acordou pela manhã, da nossa moradia universitária, percebeu que eu era mau humorada nas primeiras horas do dia e foi ela também quem persistiu em me dar bom dia mesmo assim. Foi Milena também quem notou que eu não sabia arrumar casa como ela, lavar, varrer (e principalmente varrer), ou cozinhar como ela, mas nem por isso deixou de me ajudar e ensinar como se cuidava de uma casa.
     Porque foi ela também que secou o meu rosto numa noite de desespero quando eu percebi que amores machucam, e que nem sempre são amores e que os homens quase sempre mentem, mas foi ela também quem eu fiz questão de apresentar pro meu amor, quando eu descobri que tem gente que ainda que te faça sofrer, não tem a intenção de fazê-lo, e foi dela quem ele disse: gostei dessa garota, uma amizade muito boa pra você. E foi Milena também que me animou quando eu disse que tava gorda, e me disse que eu estava linda umas 300 mil vezes, até o dia em que eu comecei a acreditar. Foi Milena quem me levou pra casa quando eu bebi um pouquinho além da conta, que me segurou quando eu tropecei no paralelepípedo, que foi ao mercado comprar mimos pra me alegrar. Porque foi Milena que foi comigo ao médico quando eu adoeci, me deu comida depois que eu tomei uma injeção do bumbum.
     É por isso que eu sou grata, sabe? Não não sabe, porque tem tanta coisa mais... Até esqueci de contar que foi Milena que foi pra festa comigo, que riu da cara daquele carinha que preferiu a proletária. Foi Milena também que me reprovou quando eu tava errada, que fez birra, que foi dormir na sala quando não queria mais olhar pra mim. Que foi a missa comigo, que rezou por mim a noite, que me ouviu cantando na igreja e me imaginou uma cantora. Foi Milena quem disse a mim que me emprestaria o seu anjo da guarda no momento mais difícil que eu passei. E isso é tanto, sabe? Não, também não sabe... Porque só eu e Milena sabemos.
     E então e por mais meio milhões de motivos, ou por milhões inteiros, hoje quando eu for dormir eu vou conversar com Deus mais uma vez, e vou pedir a Deus mais uma vez, a graça de que meu porto continue sempre sendo seguro. Vou pedir a Ele assim, baixinho que é pra não assustar, que Ele nos deixe viver a vida inteira do ladinho. Vou falar pra Ele que eu nem merecia uma amizade assim tão linda, tão forte e tão verdadeira, mas já que ele me deu eu vou cuidar. E ainda, e mais, e pra finalizar eu vou pedir que o nosso sonho de sermos felizes pra sempre aconteça, mas que se der pra Ele ajudar que sejamos: felizes para sempre, JUNTAS.

domingo, 15 de julho de 2012

Eu e Ele


Estava fazendo falta, tanta falta que nem eu sabia o tamanho da dor que eu estava acorrentando aqui dentro. Então eu resolvi que iria a missa. Quando pisei na estrada parecia que era a primeira vez em que ia ter um encontro com Ele. Entrei na igreja e percebi que estava sentindo falta daquele ar peculiar de me sentir em casa, de sorrir para aqueles velhos sorrisos, de dar boa noite e receber tapinhas nos ombros.
Foi quando olhei para cruz, e Jesus lá de cima parecia me reprovar mudo pelas minhas atitudes, e eu o encarava aqui de baixo e dizia: machuquei o meu melhor amigo e não tive tempo pra ele. Senti pena por isso, e meus olhos fixos naquela imagem chegaram a lacrimejar e de repente eu senti que Cristo desceu na cruz e me abraçou, e eu ali, fraquinha fraquinha, cansada de procurar ajuda e entendendo que só Ele mesmo podia me salvar.
E Ele continuava ali, cabeça tombada pro lado, os olhos fechados, o corpo chagado e me dizendo: abre o coração, Victoria, é pra mim que você tem que correr. E eu abri, contemplando a grandeza de ver que alguém me ama como nenhum outro, e sentindo ainda que por algum tempo eu estive longe daquilo.
E Ele continuava me olhando de lá, então meu corpo se curvou como se fora a primeira vez que eu recordava a última ceia, e como se fora a vez mais importante eu senti que Deus se derramava lá em cima pra que me sentisse bem, e eu que havia entrado com o mundo nas costas pude então de pouquinho a pouquinho livrar-me das amarras. E Ele me falava assim: deixa eu te curar, Victoria.
E então eu O recebi, e fiz-me de sacrário mais uma vez, mas como se fora a primeira, e ele perdoava-me e corria também pra curar o problema maior que eu havia contado a Ele. Foi quando o sacerdote tomou a palavra e disse, numa revelação pelo Espírito, tal como acontecera em outra ocasião que Deus estava curando o meu problema, e sentada no primeiro banco da igreja, em meio as lágrimas que caiam, eu olhei pra Ele mais um vez -cabeça tombada pro lado, os olhos fechados e o corpo chagado- e disse: Rei dos reis e meu, se Tu não me curasse, eu sei, nenhum outro curar-me-ia.

sábado, 23 de junho de 2012

Você está atrasado, sabia?


Mas eu até ficaria horas aqui, escrevendo como eu me sinto agora, você estando exatamente 15 minutos atrasado pra nossa conversa mais importante... Eu estou até gelada e com frio nas mãos, mas meu corpo está queimando, acho que isso é medo. Eu estou linda, e arrumada como se estivesse saindo. De fato estou, estou saindo da sua vida. Tá doendo? Você pode sentir a mesma coisa que eu?
Eu estou me irritando também, porque já se passou um minuto desde quando eu comecei a escrever essas bobeiras e você não desponta no meu portão, que que há, anda faltando coragem? Agora são dois minutos, eu respiro fundo e sinto o cheiro –que está até me enjoando, pelo excesso- do perfume doce que você me deu, quer dizer você não.. ah deixa pra lá.
São 20:58, 18 minutos atrasado, e olha que você nunca foi disso hein. Quem sempre se atrasava era eu, quem sempre me ligava berrando, mandando eu descer era você. Justo hoje na conversa mais importante. Mais um minuto e eu sinto até meu coração pulando, sabe quando você pode ver o peito mexendo, estou assim agora. Curvada para escrever, ou pra tentar me esconder da verdade. A verdade é que está doendo demais.
21:00 em ponto, posso começar a querer te matar? Você está exatamente meia hora atrasado. Atende o telefone porque agora eu vou começar a ser chata.
-Vai demorar? (não conheço ‘oi’)
-não, to indo praí agora.
Legal saber que a conversa mais importante vai acontecer dentro de alguns minutos e eu aqui, escrevendo como eu me sinto agora. To sentindo o peso do mundo inteiro nas minhas costas, eu tinha um bonequinho que mostrava exatamente esa cena, se não estivesse tão nervosa tentaria decreve-lo, em cores... mas você está quase chegando e minhas mãos estão gelando como se eu as tivesse posto dentro do congelador... Por falar em congelar, que dor. “Mas acaso moço, existe dor mais doída que a dor da partida?” É só o que passa agora na minha mente.
Acho que esse tempo escrevendo me fez esquecer tudo que eu tinha decorado pra te falar, até a pausa pra dar uma choradinha, e agora? Sem roteiro como a gente faz? Não faz n´? também não ia fazer muita diferença, é conversa de despedida, e eu até ficaria inventando novos discursos se não estivesse escrevendo.
Agora eu preciso pensar como vou falar com você quando eu entrar no carro, eu não tinha pensado nisso, dou um beijinho, um abraço, os dois,  beijo no rosto...(?) na testa. Não na testa não que é traição, e isso aí num fim de namoro é sacanagem... Cara você está a 37 minutos atrasado.
Como eu faço pra me acalmar? Meu pai ronca no outro quarto como se não pudesse ver o meu desespero, coitado, não pode mesmo,afinal eu acho que só eu estou vendo o meu desespero tanto que preciso escrever pra alguém ler  depois como eu fiquei nervosa no final das contas.
E por falar em contas, já são 38...ops na viradinha, 39. 39 minutos de desespero. E se eu soubesse que você ia demorar tanto eu tinha elaborado um texto melhor, com palavras mais bonitinhas, teria explicado até como era o bonequinho de blusa branca, calça azul que carregava uma mochila-mundo na verdade o mundo tinha alças de mochila... viu, demorou tanto que deu até tempo de descrever em cores pó bonequinho. Aí você liga e diz:
-to no teu portão
-tá, to descendo.
Mas peraí, agora vou terminar o texto, eu até falaria como meu coração ta acelerado e como suo nas axilas, mas eu não tenho mais tempo, afinal 21:11..... mas ta doendo viu?!

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Éramos nós cinco naquele instante

     Hoje eu saí pra ver o mar, e só ve-lo de longe me bastava, a paz do mar quebrando sem que ninguém o ordenasse já me completava o peito. Mas eu fui chegando perto, pra ver se a imensidão do mar me engolia de mim mesmo, me levava até mais pra dentro de mim. Foi lindo me encontrar com meus próprios sentidos, foi mágico. O mar me molhava o corpo, a areia tentava ser parte dele se grudando em mim como súplica de quem não quer nos deixar ir embora, e o mar ia me levando pra dentro dele, muito forte que quase caí. Mas aí tive medo e recuei. Sentei-me na areia seca. Deite-me de barriga para o ar e vi o céu. O céu com sua calma me engolia tanto quanto o mar, nenhuma nuvem cobria minha cabeça, nada me separava do azul celeste, eramos só eu e o céu, numa ligação extremamente intima e direta. Fechei os olhos, o sol me alfinetava as vistas, então tentei encara-lo. Sem exito. Em menos de um segundo eu tornei a fechar os olhos. O sol, tal como a areia molhada, quis fazer parte de mim, cravando em meu corpo a cor que ele bem entendesse deixar, não ligo, eu gosto do bronzeado que ele me dá. Éramos nos cinco naquele instante, o mar quebrante, a areia suplicante, o céu calmo, o sol ardente e eu. Bastou que nós cinco nos encontrássemos para que eu me sentisse inteira novamente, porque a natureza cura e completa os buraquinhos que amor nos deixa.