Pouca luz, som alto, pouca roupa, muito sorriso. Sábado a noite, você já pode imaginar. Muita maquiagem, anéis, cordões, saltos e um surfista. Como assim um surfista no meio da boate? Não sei, não entendi também. Eu estava vendo, estática, um robô psicodélico que adentrou no recinto quando um cara pisou no meu pé e disse: perdão. Eu acho que foi assim que nos conhecemos, ele estava tirando fotos do robô que eu observava de longe, meio embaraçada pelo álcool. Disse: não há de que. Não sei se foi assim que nos conhecemos, mas se não foi, passa a ser. Inventei porque eu gosto dos começos.
Eu encostei nele quando quase caí e disse: perdão. E ele respondeu: não há de que. Muita cordialidade pra dois seres meio perdidos na night do Rio. De repente no meio daquela empolgação do robô coberto de luzes, tocou cone crew, eu como louca comecei a cantar muito empolgada, ele olhou. E pela indiscrição de ter me olhado, disse: Perdão. Eu ri, ri como louca, ou como bêbada mesmo e disse: não há de quê.
E aí ele se aproximou, perguntou meu nome, me falou o dele. Disse sua faculdade, perguntou a minha. Perguntou o curso, disse o dele. Depois me olhou no fundo dos olhos, como oftalmologista e disse: Você mora aqui? Respondi que não, disse: Guaratiba. Ele retrucou: Grumari? Eu gritei: Você surfa? Ele disse: Sim.
Depois de alguns segundos de espanto, que até agora eu não entendi o motivo, consegui dizer que adorava surf, inventei que surfava também, só pro papo ficar mais interessante. Fui perguntando as coisas básicas que ouço meu irmão falar, quando o assunto é pegar onda, ele foi se enrolando e no final disse: Tá, não surfo tanto. Surfo de... Eu como louca esvairada, me atirei com as palavras a frente e disse: De long? Ele: isso, surfo de long. Eu entendi ali que ele não surfava era nada, deve ter pego umas ondinhas de bodyboard e queria que eu acreditasse que ele surfava de quilha. Mas mesmo assim eu achei irado.
Ele falava um 'brother' bem do jeito que eu gosto de ouvir, de dentro pra fora, assim colocando toda expressão do mundo, e eu achei irado, o surfista de long, que nunca surfou. Achei aquilo fantástico, talvez por estar bêbada, talvez por ter entendido que ele também estava achando legal falar de uma coisa que nunca fizera. E aí o robô foi embora, e meu celular tocou avisando que já me esperavam na saída, dei adeus ao surfista da long e fui embora. No outro dia fiquei achando que éramos amigos, e só falamos trinta minutos sobre coisas que não fizemos, mas foi engraçado conhece-lo. O meu quase amigo, quase surfista, quase de long.

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