Gosto de brincar de falar palavras que só eu lembro o significado. Gosto de sorrisos discretos, de músicas nacionais, tradicionais, banais. Gosto também de coisas manuais, de coisas simplórias. Gosto de coisas antigas, de móveis que contam história, sou fascinada por antiquários e as histórias ocultas que eles não contam, mas a gente escuta. Gosto de novela, gosto de poema, gosto de chorar vendo filme de romance, gosto de pijamas de calça e meias que combinem com eles.
Deixei de gostar de coisas complicadas, faz tempo que não gosto de ficar resolvendo os problemas dos outros. De uns tempos pra cá também não tenho gostado muito de gente, gostoso pra mim é ficar quietinha, sozinha. Porque eu gosto mesmo de falar sozinha, eu gosto muito mesmo. Não gosto de cachorro me lambendo as pernas, mas gosto de ve-los correndo em grandes jardins. Gosto de praia, gosto de sol, gosto de agua de coco, gosto da carninha que tem lá dentro.
Gosto de gente sincera, que fala o que pensa, e não pensa o que fala. Gosto de rir dos meus embaraços, gosto de quem me embaraça e ri de mim por estar embaraçada. Gosto de abraço forte, de apoiar minhas mãos em peitos firmes e juntar os dedos à boca e imaginar que estou sendo salva pelo homem aranha. Gosto de sorrisos abertos, de sorrisos claros. Gosto sim e muito de clareza, mas ainda fico com o subliminar.
Gosto de gostar de tanta coisa que gosto em mim, que vira e mexe gosto de procurar essas coisas em quem eu gosto. E gosto também de não achar nada que gosto, em mim, nas pessoas. Mas gosto nas pessoas o que não gosto em mim. Gosto dessa coisa de gostar e desgostar. Gosto de cada bobagem, de doce, de salgado. Gosto de comer balas de dentaduras e fingir que uso uma delas. Gosto dessas coisas bobas. Coisas boas que a vida dá, que as vezes a gente esquece que gosta, e por esquecer finge que se passasse a vida sem topar com uma dessas acabaria por deixar de gostar.

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