quinta-feira, 23 de agosto de 2012

E gosto não se discute

     Gosto de brincar de falar palavras que só eu lembro o significado. Gosto de sorrisos discretos, de músicas nacionais, tradicionais, banais. Gosto também de coisas manuais, de coisas simplórias. Gosto de coisas antigas, de móveis que contam história, sou fascinada por antiquários e as histórias ocultas que eles não contam, mas a gente escuta. Gosto de novela, gosto de poema, gosto de chorar vendo filme de romance, gosto de pijamas de calça e meias que combinem com eles.
     Deixei de gostar de coisas complicadas, faz tempo que não gosto de ficar resolvendo os problemas dos outros. De uns tempos pra cá também não tenho gostado muito de gente, gostoso pra mim é ficar quietinha, sozinha. Porque eu gosto mesmo de falar sozinha, eu gosto muito mesmo. Não gosto de cachorro me lambendo as pernas, mas gosto de ve-los correndo em grandes jardins. Gosto de praia, gosto de sol, gosto de agua de coco, gosto da carninha que tem lá dentro.
     Gosto de gente sincera, que fala o que pensa, e não pensa o que fala. Gosto de rir dos meus embaraços, gosto de quem me embaraça e ri de mim por estar embaraçada. Gosto de abraço forte, de apoiar minhas mãos em peitos firmes e juntar os dedos à boca e imaginar que estou sendo salva pelo homem aranha. Gosto de sorrisos abertos, de sorrisos claros. Gosto sim e muito de clareza, mas ainda fico com o subliminar.
     Gosto de gostar de tanta coisa que gosto em mim, que vira e mexe gosto de procurar essas coisas em quem eu gosto. E gosto também de não achar nada que gosto, em mim, nas pessoas. Mas gosto nas pessoas o que não gosto em mim. Gosto dessa coisa de gostar e desgostar. Gosto de cada bobagem, de doce, de salgado. Gosto de comer balas de dentaduras e fingir que uso uma delas. Gosto dessas coisas bobas. Coisas boas que a vida dá, que as vezes a gente esquece que gosta, e por esquecer finge que se passasse a vida sem topar com uma dessas acabaria por deixar de gostar.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Parece que alguém morreu, mas não morreu ninguém.

     Eu estive parada esse tempo todo, pensando em como você deve estar agindo para driblar a distância e a nossa falta de encontro. Eu estive mesmo aqui, pensando quando acordava ou quando ia dormir, ou a qualquer hora do dia, em como você estava fazendo pra não me ligar, pra não me mandar mensagem ou pra não pensar em mim. Achei, durante esse tempo todo, que sua vida também andava meio vazia e que eu fazia falta tanto quanto você andava fazendo pra mim.
     Quando as pessoas perguntavam o que tinha acontecido, eu respondia o básico e mudava de assunto. Quando eu me perguntava o que tinha acontecido, eu teorizava demais e te transformava no cara mais verdadeiro e mais leal aos meus sentimentos. Mas não, talvez não fosse tão assim. Minhas amigas fizeram plantão na minha casa, todo mundo me liga como se alguém tivesse morrido, e eu noto a mesma frase em todos os discursos de conforto: "vai passar, no início é assim mesmo, mas depois passa".
     Acho que durante esse tempo em que eu esperava que passasse, eu realmente estava achando que alguém tinha morrido, talvez tenha mesmo. Parece também que eu me cobri de preto, de luto mesmo. E quando alguém chegava perto, tentando se aproximar, a redoma que eu tinha colocado proibia. Talvez eu só quisesse você de volta, talvez fosse só força do hábito, ou eu mesmo que desacostumei dessas coisas. O primeiro sorriso de outro cara me assustou, eu lia: "sorriso", mas meu cérebro respondia: "não é o dele". Depois ele me pediu meu telefone, eu lia: "quero seu telefone", mas meu cérebro respondia: "você não vai querer atender se ele ligar". Por fim ele me pediu um beijo, eu lia: "quero um beijo seu", mas meu cérebro respondia: "você não quer o dele".
     Foi difícil esse tempo de tristeza profunda, esse tempo preto, essa aflição de não saber de nada da sua vida, a não ser as coisas que você queria que eu soubesse, que fazia questão que eu ficasse por dentro. Essas coisas mesquinhas que você publicava pra me provar, ou me comprovar mesmo, que você estava bem. Doeu, viu?! Cada noite que você colocava uma noitada diferente doía. Mas eu sempre achava que era por conta do vazio, era auto defesa do seu coração.
     Mas aí, hoje pela manhã eu andei me lembrando que um dia você disse pra mim que eu era sua amiga, que eu era sua melhor amiga, sua única amiga, na verdade. Nesse dia você também me disse que não gostaria de ver seus amigos sofrendo por algo que fazia. Que se você pudesse nunca magoaria um amigo seu. Contraditório, não?! Então eu acho que não há mais razões pra sofrer quando se entende isso. Porque onde você estava quando eu mais precisava de uma palavrinha? Onde você estava quando qualquer sms vago salvaria a noite? Onde você estava quando viu que eu estava realmente mal e não fez nada? Onde você estava?
     Então, e assim, não há mais motivos pra chorar. Porque esse tempo todo você não estava se sentindo vazio, como eu supunha. Nem andava driblando coisa nenhuma, como eu achava. Nem estava se auto defendendo de coisa alguma quando não me procurava. Você simplesmente não estava. E essa deve ser realmente a vida que você almejava, sem nenhuma daquelas minhas ligações de "se cuida, eu amo você", sem nenhum sentimentalismo aflorado as 2:30 da madrugada, sem nenhuma responsabilidade de ter que cumprir aspectos formais de relacionamentos, sem ter de ouvir ou falar pra ninguém que gostaria de viver ao lado dessa pessoa a vida inteira.
     Andei de luto durante esse tempo, esperei pra ver se a dor ia embora, ou se você voltava mesmo, mas até ontem nem sinal de ambos. Então foi aí que eu pensei: "vou fazer o que se tá achando mais legal uma mesa, uma garrafa de vodka e umas mulheres bonitas e vazias dando mole? faz parte". E resolvi tirar o luto, não morreu ninguém, eu é que estava morrendo enquanto a vida passava. Ontem eu neguei um sorriso, um telefone e um beijo. Mas hoje, tirei o luto.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

O surfista da long

     Pouca luz, som alto, pouca roupa, muito sorriso. Sábado a noite, você já pode imaginar. Muita maquiagem, anéis, cordões, saltos e um surfista. Como assim um surfista no meio da boate? Não sei, não entendi também. Eu estava vendo, estática, um robô psicodélico que adentrou no recinto quando um cara pisou no meu pé e disse: perdão. Eu acho que foi assim que nos conhecemos, ele estava tirando fotos do robô que eu observava de longe, meio embaraçada pelo álcool. Disse: não há de que. Não sei se foi assim que nos conhecemos, mas se não foi, passa a ser. Inventei porque eu gosto dos começos.
     Eu encostei nele quando quase caí e disse: perdão. E ele respondeu: não há de que. Muita cordialidade pra dois seres meio perdidos na night do Rio. De repente no meio daquela empolgação do robô coberto de luzes, tocou cone crew, eu como louca comecei a cantar muito empolgada, ele olhou. E pela indiscrição de ter me olhado, disse: Perdão. Eu ri, ri como louca, ou como bêbada mesmo e disse: não há de quê.
     E aí ele se aproximou, perguntou meu nome, me falou o dele. Disse sua faculdade, perguntou a minha. Perguntou o curso, disse o dele. Depois me olhou no fundo dos olhos, como oftalmologista e disse: Você mora aqui? Respondi que não, disse: Guaratiba. Ele retrucou: Grumari? Eu gritei: Você surfa? Ele disse: Sim.
     Depois de alguns segundos de espanto, que até agora eu não entendi o motivo, consegui dizer que adorava surf, inventei que surfava também, só pro papo ficar mais interessante. Fui perguntando as coisas básicas que ouço meu irmão falar, quando o assunto é pegar onda, ele foi se enrolando e no final disse: Tá, não surfo tanto. Surfo de... Eu como louca esvairada, me atirei com as palavras a frente e disse: De long? Ele: isso, surfo de long. Eu entendi ali que ele não surfava era nada, deve ter pego umas ondinhas de bodyboard e queria que eu acreditasse que ele surfava de quilha. Mas mesmo assim eu achei irado.
     Ele falava um 'brother' bem do jeito que eu gosto de ouvir, de dentro pra fora, assim colocando toda expressão do mundo, e eu achei irado, o surfista de long, que nunca surfou. Achei aquilo fantástico, talvez por estar bêbada, talvez por ter entendido que ele também estava achando legal falar de uma coisa que nunca fizera. E aí o robô foi embora, e meu celular tocou avisando que já me esperavam na saída, dei adeus ao surfista da long e fui embora. No outro dia fiquei achando que éramos amigos, e só falamos trinta minutos sobre coisas que não fizemos, mas foi engraçado conhece-lo. O meu quase amigo, quase surfista, quase de long.