sábado, 27 de abril de 2013

Sem valsa


      Sorriu pela primeira vez e saiu de cena. Antes que a plateia começasse a aplaudir ela já estava longe do teatro. Não foi por mal, só não foi mais por que não quis. Não quis foi dançar a última valsa, tirou as sapatilhas que apertavam os pés cansados e saiu rodopiando pela cidade. Tanto que rasgou as meias rosas novinhas, nem quis saber. Ela não queria mais.
     Sorriu pro público e numa pirueta estava fora. Fora do espetáculo e ousam dizer que não se arrependeu. Pelo caminho foi deixando um tantinho seu. Largou um brinco numa esquina, deixou um anel numa janela, pendurou o guarda-chuvas numa lamparina e não pensou em voltar pra buscar. Uma senhora ainda gritou, tentando alertá-la o esquecimento: deu de ombros. Certamente ninguém entendeu a bailarina. "Essa moça não vai bem da cabeça". Ninguém na cidade se aproximava mais dela, alegria também incomoda.
     Belo dia ela caiu, tropeçou numa pedra e ralou os joelhos. Todos olhavam de longe e riam da moça. "Bem feito, quem mandou rodopiar tanto". Mas um rapazinho, franzino, se aproximou de mãos estendidas e ofereceu à moça um afago. Abraçada no moço ela chorou, como se todas as lágrimas do mundo estivessem guardadas naqueles olhos. O rapaz se assuntou: Comentavam que você beirava a loucura de tanta felicidade. A moça o olhou com os olhos marejados e respondeu: finjo bem, mas não se engane, alegria em excesso é tristeza.

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