sábado, 27 de abril de 2013

Sem valsa


      Sorriu pela primeira vez e saiu de cena. Antes que a plateia começasse a aplaudir ela já estava longe do teatro. Não foi por mal, só não foi mais por que não quis. Não quis foi dançar a última valsa, tirou as sapatilhas que apertavam os pés cansados e saiu rodopiando pela cidade. Tanto que rasgou as meias rosas novinhas, nem quis saber. Ela não queria mais.
     Sorriu pro público e numa pirueta estava fora. Fora do espetáculo e ousam dizer que não se arrependeu. Pelo caminho foi deixando um tantinho seu. Largou um brinco numa esquina, deixou um anel numa janela, pendurou o guarda-chuvas numa lamparina e não pensou em voltar pra buscar. Uma senhora ainda gritou, tentando alertá-la o esquecimento: deu de ombros. Certamente ninguém entendeu a bailarina. "Essa moça não vai bem da cabeça". Ninguém na cidade se aproximava mais dela, alegria também incomoda.
     Belo dia ela caiu, tropeçou numa pedra e ralou os joelhos. Todos olhavam de longe e riam da moça. "Bem feito, quem mandou rodopiar tanto". Mas um rapazinho, franzino, se aproximou de mãos estendidas e ofereceu à moça um afago. Abraçada no moço ela chorou, como se todas as lágrimas do mundo estivessem guardadas naqueles olhos. O rapaz se assuntou: Comentavam que você beirava a loucura de tanta felicidade. A moça o olhou com os olhos marejados e respondeu: finjo bem, mas não se engane, alegria em excesso é tristeza.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Vou pra mares distantes


    Sentia que a mudança, ainda que tardia, se fazia necessária (pra minha própria salvação). Apeguei-me a coisas tão vazias nos últimos tempos, que tentar me aproximar de algo sólido pode parecer transbordar. Mas não é isso. Sentia que precisava refazer a vida, como quando criança que caia. Levantar do chão, bater uma palma na outra, disfarçar o tombo e exclamar aos amiguinhos que brincavam no balanço ao lado: “nem doeu”. Era tempo de deixar de doer, por inteiro, e sem disfarces.
     Sentia que precisava caminhar, ainda que sem forças, era preciso encontrar uma ajuda pra me tirar daquele lugar. Neguei tantas mãos que se estenderam nesse tempo todo que já começava a achar que era ali mesmo que eu ia terminar meus dias. Mas não era. Sentia com todas as minhas forças que era necessário, ao menos uma vez, ter força pra dizer a Deus: faça-se em mim conforme a tua vontade. Porque era duro demais pedir em toda oração algo que eu sei que não era pra mim, com o pretexto de que Deus realiza o impossível.
     Me afundei na melancolia, no fulgor de noites mal dormidas, no calabouço de bares liberais e na triste solidão de quem pensa viver um romance inteiro em algumas horas e que depois da cena das mãos dadas deixa o filme com a leve e estupenda noção de que no dia seguinte você vai vê-lo sorrir de longe e dizer: mas um que nada me acrescentou.
     Até que a vida se virou – zangada, decerto – para mim e gritou aos meus ouvidos: Tá faltando o que para você tocar o barco? E depois de muito pensar, depois de muito penar, eu entendi que não faltava nada. Embora a gente se prenda tantas vezes a coisas e realidades que não nos fazem mais felizes, a gente insiste. E insistir, muitas vezes, não é sinal de fortaleza como muitos pensam, é sinal de burrice.
     Agora, mais uma mão se ergue. E de frente pra vida faço uma prece, para que eu não avilte mais a mim mesma com essa mania de aceitar menos do que eu mereço. Porque hoje sei que mereço muito. E ainda que eu esteja acostumado com o raso, sei muito bem que estou preparada pra alto mar.