sábado, 27 de outubro de 2012

Posso ou não posso?

 
       Podia sair pela rua com um guarda chuva colorido, pulando poças na grama, rindo para quem estivesse me olhando pela janela.
     Podia jogar meia dúzia de roupas na mochila, dar uma banana para esse tédio, colocar um fita rosa choque no cabelo, um óculos bem grande, sorrir para o apresentador do jornal da noite e sair pelo mundo.
     Eu podia também correr pela pela cidade gritando palavras de felicidade, jogando purpurina e confete dos altos dos prédios da Central do Brasil, só pra ver alguém mais feliz por hoje.
     Eu podia parar no boteco da esquina, desamarrar as sandália, sentir o sujo do chão pelos meus pés, rir para o bebum, sem os dentes da frente, e sentir que posso ser como ele.
     Eu podia pegar um avião, um ônibus um trem, ir atras e quem me deixou, contar meia dúzia de besteiras, comer e dormir como se não houvesse mundo do lado de fora da janela de ferro.
     Podia e posso muita coisa, fala-se muita coisa, fala-se muito de liberdade, mas eu consigo ver as amarras grotescas e dolorosas que aprisionam as pessoas. Amarras na mente, nos pés, nas mãos e no lado que bate uma escola de samba.

domingo, 7 de outubro de 2012

Porque era tarde demais

     Não fosse tarde, ele lançaria a mão ao telefone e com o ar mais dispendioso que lhe sobrasse, ousaria por descuido ou  por maleficência, cuspir algumas de suas palavras tórpidas, que a deixariam novamente em êxtase. Não fosse tarde, ele -que embriagado encontrava-se naquela noite mórbida- pegaria seu carro veloz, e como num vulto apareceria no seu portão de madeira. Não fosse tarde, acredita-se perfeitamente, que ele a procuraria mais uma vez com todo seu olhar provocante de quem nada procura e tudo tem.
     Não fosse já tarde, ela também teria procurado por ele mais uma vez, e com a voz mais aveludada que lhe coubesse, ousaria por descuido ou ingenuidade, recitar algumas de sua palavras nostálgicas, que o deixariam novamente perplexo. Não fosse já meio tarde, ela também -meio embriagada decerto- naquela noite esvoaçante, procuraria-o no seu paradeiro. Não fosse já tarde, acredita-se perfeitamente, que ela também o encontraria com todo seu olhar inquieto de quem nada tem e tudo procura.
     Acredita-se, redondamente, que essa história teria se repetido algumas tantas vezes, e que por essa razão o fim das contas já seria esperado, mas na derradeira que vos conto, o tempo já se tinha avançado demais. Acredita-se também que os conselhos que as partes interessantes teriam recebido, no tempo descrito, fossem diferentes. A um cabia 'não deixe que se perca', a outro 'desvincule-se disso'. Entretanto, ambos seguiam os conselhos trocados, o que era devido a um, era exercido pelo outro. E assim sem perceber, o tempo avançara e cada qual na sua monotonia radical esquecera-se de que mais vale sentir a ausentar-se.
     E então, na crista longitudinal do problema, resolveram culpar o tempo. Tempo que nunca mentira e sempre dissera: cuidado, não brinque comigo. Então, quando ele avançado apresentara-se, tentando se ausentar da culpa do não querer no tempo certo, eles culparam o tempo, pelo bel-prazer que insistiram. E o tempo que de longe olhara, pensava consigo mesmo, que a peça que o destino causara, culpava-o por desgraça, o desamor de dois, que se não tivessem sido tão teimosos, não deixariam que o tempo levasse. E ele que dera tantas chances dizia: eu disse!
    E se não fosse tarde demais, certamente os dois teriam aberto mais seus olhos, e enxergado que do lado deles não caberia a nenhum outro andar. E se não fosse já tarde demais, a repugna de uma juventude vã teria os feito ver que mais valia ter ficado juntos. Mas porque era tarde demais, nenhum dos dois consentia, que a única coisa que lhes cabia, era o amor dos dois, a dois.