Devia ser uma segunda feira do mês de março, era o primeiro dia de aula do Colégio Pedro II – unidade Realengo, abri a parta de uma sala qualquer, sentei-me e antes de sentar-me vi que alguém sorria com tanta felicidade que me chamou atenção.
Não que aquela pessoa estivesse realmente feliz, não acredito que estivesse mesmo, mas aquela pessoa conseguia sorrir mesmo com a maior das dores no peito. Acontece que essa pessoa tinha repetido de ano e faria o segundo ano do ensino médio mais uma vez... É de se chorar, mas ela preferiu sorrir.
Visivelmente se afastava de nós, sorrateiramente nos cercava. Mal sabíamos do futuro. Ela sorriu de novo, perguntou a minha amiga se ela era irmã de um carinha, para ela (e talvez não só para ela) o mais bonito da turma que se formara. Ouviu a resposta. Sorriu. Abraçou. Sorriu. Gargalhou. Se afastou. Foi embora, mas voltou e ficou, em mim, em nós.
E nos conhecemos e agora ela era Juliana e eu Victoria, e agora nos falávamos, mas – preciso confessar – não nos tornamos amigas no ato. O fato foi que o tempo nos aproximou, dou como tempo um ou dois meses no máximo e já não éramos mais Juliana e Victoria, éramos Baranga e Vic e assim fomos nos tornando próximas.
Até que um dia brigamos, feio. E nos ofendemos e não nos falamos, e podem dizer dessa briga o que quiserem... e posso dizer dessa briga o que for, não vale a pena... Não ganhei nenhum troféu com essa briga (a mais feia que já tive com alguém), mas ganhei MUITA coisa com a reconciliação (a mais linda que já tive também).
Lembro-me de não querer dar o braço a torcer, lembro-me de ter brigado por uma coisa boba, lembro-me de ter chorado, lembro-me de ter sentido medo de perde-la, lembro-me de ter rezado, e rezado, e rezado... Até que um dia Baranga me pediu desculpas, e lembro-me de ter chorado e de ter dito que nunca deixaria de ama-la, lembro-me ter prometido a mim mesma não brigar por coisas bobas... não me lembro de outra briga importante, lembro-me de picuinhas bobas.
De quando em quando brigávamos, nos entendíamos. De cinco em cinco minutos ela dizia: Vic, te amo. Não lembro-me de compreender porque desses ‘eu te amo’ sem razão, lembro-me inclusive de questionar-me sobre as falas... mas quem entenderia Juliana.
Sorrimos. Choramos. E nada que vivemos em um ano e meio foi em vão.
Segredos. Mentiras. Verdades. Brincadeiras.
De desconhecida à Juliana, de Juliana a Baranga, de Baranga a Migs. Era assim que Juliana me chamava, não só a mim a todos. Doce. Pura. Carinhosa. Juliana.
Que saudade de Juliana, que saudade do que eu era quando Juliana era presença.
Das festas que tivemos, das viagens que fizemos só lembranças boas, só sorrisos, gargalhadas, só meus olhos podem dizer que falta fazem.
Era uma segunda feira, uma segunda feira comum, até a hora em que Juliana tirou uma foto - com a turma que um dia fora separada – e me chamou pra conversar. ‘Agora cara? Preciso comer, preciso falar com não sei quem, preciso, preciso...’ ; ‘Agora Vic, tem de ser agora, hoje, vamos.’
E fui, e Juliana começou a falar como louca, coisas das quais eu não entendia, me pedia desculpas por erros passados, perdão pelas brigas, me pedia perdão por estar com um menino que eu já estive, por ter me magoado... eu perdoei, sem entender. Juliana abaixou a cabeça, eu vi a lágrima molhar sua perna, eu a vi levantar a cabeça e dizer : Eu te amo Vic.
Fui embora, sem saber, sem entender, Juliana estaria maluca? Talvez. No outro dia não vi Juliana, senti falta, perguntei: faltara. O dia passou, fui pra casa. Cheguei, comi, tomei banho, dormi, tudo normal. Mas amanheceu a quarta feira e por volta de oito horas meu telefone tocou. ‘Juliana faleceu’. Como? Porque? Quando? Mentira. Não Juliana.
O dia mais triste da minha vida, não sabia levantar, não sabia andar, não sabia pensar, só sabia chorar e lembrar, e chorar, e lembrar. E foi triste e não me curei... Eu não mais a tenho, eu não mais a abraço, mais eu ainda posso ouvir Juliana dizer-me “Vic, eu te amo”. Por que Juliana desenhou esta frase na minha mente e no meu coração.
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