Hoje, excepcionalmente hoje, eu tenho a honra de fazer uso das palavras do professor paraninfo de minha turma, que concluiu pelo Colégio Pedro II o ensino médio no dia 17/12/2010.
Um discurso a ser levado por toda vida.
'É com grande emoção que falo agora aos meus queridos amigos, com quem compartilhei a sala de aula durante esse ano letivo, agora não mais como professor, mas como paraninfo, um amigo, alguém que tem algo a dizer a vocês que agora concluem um momento da sua formação que se iniciou na infância e encontra sua transição nesse final de adolescência que despontará no início de uma vida jovem e adulta.
Serei breve, pois não é necessário muito tempo para o que eu tenho a dizer. Vocês agora têm nas mão algo muito valioso, algo que é universal e que é exclusivo de cada um de vocês; algo mais complexo que a física, mais intrigante que a química, mais desafiador que a história, a geografia e a sociologia. Algo mais antigo que a filosofia e a matemática e mais encantador que a biologia. Vocês tem nas mãos a chave de um código que abre infinitas possibilidades, assim como uma gramática e um dicionário são capazes de permitir a expressão dos seus sentimentos mais sublimes.
Isso que vocês agora podem sentir entre os dedos é o segredo da sua liberdade. Uma liberdade que é um artefato das suas próprias possibilidades, uma liberdade que não é o “pode tudo” infantil, mas a possibilidade de construir o novo dentro de um coletivo, através de laços fortes estabelecidos entre amigos e colegas, alunos, professores e funcionários. O produto sólido da vontade e do querer de seus espíritos jovens. A liberdade de produzir o nunca visto, o inaudito. A liberdade de construir uma autonomia do fazer juntos, uma ética do “nós”, um eu que perde seu sentido sem o outro.
Sem mais notas, chamada, uniforme, sinal para entrar, inspetores, cadernetas e todo essa parafernália que produz na criança que se torna um jovem a noção dos instrumentos necessários, e dos não tão necessários assim, para que a vida em comum seja possível, cada um de vocês escolherá agora para onde ir e o que fazer. “O que fazer” é uma pergunta chave. Trabalho? Universidade? As artes? Largar tudo com uma mochila nas costas, uma viola no saco?
A partir de agora não são mais os professores que os avaliarão, mas vocês mesmos. Como medir o desempenho nessa busca idealista pela felicidade que acaba sendo o projetão das nossas vidas. Quão feliz fui esse ano? Uma felicidade “sete”, assim, na média? Uma felicidade “cinco” depois de uma PAF? Será que vale colar a resposta da felicidade do colega ao lado? Qual será a resposta certa? Será que pode “enrolar” a vida e inventar a própria felicidade? A quem implorar por aquele meio pontinho que falta para finalmente sermos felizes?
A liberdade de escolher o próprio destino também traz a responsabilidade de avaliarmos e reavaliarmos os passos dados. Nada é imutável. Não há escolha errada da qual não se possa tirar um aprendizado. Não é isso, afinal, que se tem feito todos esses anos na escola. Aprender, acertar, errar, aprender de novo? Tudo em um ambiente controlado, com profissionais orientando as suas escolhas, informando seus erros, elogiando seus acertos.
Agora é para valer, agora é com vocês. Vocês têm a liberdade e a beleza da juventude. Vocês têm um milhão de possibilidades de escolhas e, por mais assustador que possa parecer, a responsabilidade por elas será toda de vocês. É para isso que vocês estão prontos, para enfrentar a vida de frente, para não terem medo da felicidade. Isso eu aprendi quando ainda era um molecote com um condutor de trem. Ele anunciava pelo alto-falante do metrô enquanto despejava milhares de pessoas na Cinelândia em um dia de grande mobilização popular. Ele dizia: – Estação Cinelândia, desça sem medo de ser feliz! E agora sou que digo para vocês: – Chegou a hora, desçam vocês do trem; sem medo de ser feliz!'
Professor Rafael-Sociologia.